sábado, 16 de abril de 2011

FIAPO DE TRAPO

FIAPO DE TRAPO
Ana Maria Machado
Espantalho mais bonito e elegante nunca se tinha visto por aquelas redondezas. Nem por outras,
que ele era mesmo carregado de belezas. Precisava só ouvir a conversinha do Dito Ferreira enquanto
montava o espantalho, todo orgulhoso do seu trabalho:
- Nunca vi coisa igual. O patrão caprichou de verdade. Vai botar no campo um espantalho com
roupa de gente ir à festa na cidade.
E era mesmo. Tudo roupa velha, claro, como, convém a um espantalho que se preza. Mas da
melhor qualidade, roupa de se ir à igreja em dia de procissão e reza.
Dito Ferreira mostrava todo prosa:
- Esse chapéu é de um tal de veludo. E vejam que beleza essa camisa cor-de-rosa.
Tem até coração bordado... O patrãozinho pensou em tudo. Com uma gravata de seda, fez esse
cinto estampado. Até a palha do recheio é toda macia e cheirosa.
Não é que era mesmo, a danada? Tinha um perfume forte, que ajudava a espantar a passarada.
Ah, porque é preciso também dizer que aquilo tudo dava certo, funcionava tanto... O espantalho
elegante era mesmo um espanto. Passarinho nem chegava perto. E lá ficava sozinho, espetado no
milharal deserto.
O patrão ficava feliz com um defensor tão eficiente. Dito Ferreira se alegrava com aquela figura
imponente. Que espantalho diferente! Só que eles nem sabiam que diferença era essa.
Como todo espantalho, esse não andava nem falava, mas tinha o dom de poder sentir as coisas
ao seu jeito – para um boneco de palha, isso era um grande defeito.
E era só por causa do desenho que tinha bordado no peito. Linhas de cor em forma de coração –
e pronto, lá estava o pobre espantalho sofrendo com a solidão! Ninguém se aproximava dele, ninguém
fazia um carinho, e ele ficava tão triste, só, espantando passarinho...
De longe via uma passarada, de todo tipo e feição. Pintassilgo e saíra, cambaxirra e corruíra,
rolinha e corrupião. Pássaro de toda cor, de todo canto e tamanho, de todo a-e-i-o-u - sabiá, tié, bem-tevi, curió e nhombu. Vontade de chamar:
Vem cá me ver, bem-te-vi!
Vontade de mostrar:
Tico-tico, olha lá o teco-teco!
Mas não adiantava, ninguém chegava perto.
E o tempo passava. Horas e dias, dias e semanas, semanas e meses, meses e anos.
E o espantalho ficava no tempo. No bom tempo e no mau tempo. No sol que queimava e na
chuva que molhava. No mormaço que fervia e no vento que zunia.
E seu cheiro se gastava, sua cor se desbotava, sua seda desfiava, seu veludo se puía.
Até que um dia...
No tempo tem sempre um dia. Um dia em que muda o tempo e um tempo novo se inicia.
Pois foi o que aconteceu. Houve um dia em que choveu. Mas não foi chuva miúda, foi pra valer,
de verdade, foi mesmo um deus-nos-acuda, uma imensa tempestade, de granizo, raio, vendaval, com
aguaceiro e temporal, chuva de muito trovão que virou inundação.
Quando a chuvarada passou e o sol voltou, um arco-íris no céu se formou. E na beleza do dia
novo, azul lavado, vieram os pássaros, em bando assanhado, ocupando todo o campo, ciscando no
milharal. Livres, soltos, à vontade, numa alegria sem igual.
Foi aí que Dito Ferreira reparou:
Cadê o espantalho velho?
Saiu todo mundo procurando. Não acharam. Nem podiam achar. Ele tinha desmanchado, tinha
sido carregado, pelo vento espalhado, pela chuva semeado, com a terra misturado, plantado naquele
chão, sua palha adubando muito pé de solidão.
Do que sobrou por aí, foi tudo virando ninho, protegendo com carinho filhotes que iam nascer.
Veludo em trapos, seda em farrapos, coração bordado em fiapos, maciezas boas de se esquecer.
E hoje em dia, sua palha misturada na terra ajuda a plantação a crescer.
Os trapos de sua seda, o seu forro de bom cheiro, farrapos de seu veludo se espalhavam desde
o galinheiro até a mais alta árvore que tenha um ninho barbudo. E em cada ovo que nasce ali por aquele
lugar, cada ninhada que se achega à procura de calor, em cada vida a brotar, em cada marca de amor,
seu coração sobrevive num fiapinho de cor.
Machado, Ana Maria. Quem perde ganha. Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 1985.

Texto trabalhado com meus alunos.